quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Rituais portugueses para a passagem do ano

Curiosidades para o Réveillon:



Porquê 12 passas e não cinco pinhões?
Há pessoas que não suportam a textura das passas ou o seu sabor, mas no dia 31 de Dezembro lá ficam com a mão cheia de uvas secas e desejos por pedir. Para esta superstição há muitas explicações. Que cada passa simboliza um dos meses do ano é a mais óbvia, mas o antropólogo Francisco Vaz Silva aponta outra. “O nosso calendário é o solar, mas o lunar também é usado. Como tem menos 12 dias, no último mês acertavam-se as diferenças. As passas simbolizavam esses dias.” Há ainda outro simbolismo. “Os dias acrescentavam-se a partir de 26. Logo, a noite de ano novo ficava no meio desses dias. Nas aldeias até se costumava dizer que esses 12 dias simbolizavam o clima que se ia sentir nos meses do ano seguinte. Se a 26 chovesse (o primeiro dos 12 dias), Janeiro ia ser um mês de chuvas e assim sucessivamente.” O facto de se usar passas deve-se à popularidade do fruto nesta altura do ano. Mas o antropólogo Manuel João Gomes vê ainda outro simbolismo. “Em rituais antigos, as passas eram o substituto do vinho, o que acaba por ser uma referência a Cristo, mesmo que indirecta.”

Ano novo, dinheiro na mão
É fácil perceber o porquê: todos queremos mais dinheiro. Mas a primeira referência à tradição de tocar em moedas como sinal de boa sorte surgiu no século XIX. O dia do cuco provavelmente não lhe diz nada, mas era uma tradição nacional. A data simbolizava o começo da primavera, já que quando se avistava esta ave migratória, normalmente a 21 de Março, era a época das colheitas começarem a florescer e das flores desabrocharem. O que num país agrícola é sempre importante. Foi então que nasceu um ritual e uma espécie de competição. “A primeira pessoa a avistar um cuco devia pôr a mão no bolso e se encontrasse dinheiro era sinal de que ia ter um ano de riqueza e tinha de avisar os outros”, recorda o antropólogo Francisco Vaz Silva.

Roupa nova azul, vermelha, amarela… Qual é a cor certa?
A ideia é simples. O ano acabou e convém deixar tudo o que está pendente terminado, por isso nada melhor do que ter roupa nova. Ano novo, vida nova. “A noção de que os nossos actos de ano novo são o reflexo do que queremos é muito frequente”, explica Francisco Vaz Silva. Quanto às cores, terá sido uma importação que não se sabe muito bem de onde veio. As cuecas azuis são para dar sorte. Se vestir uma peça de roupa amarela é para resolver problemas económicos. O vermelho simboliza sucesso no amor e o branco é para quem procura a paz. “São cores vivas que simbolizam a alegria de renascer”, acrescenta o sociólogo Moisés Espírito Santo.

Haja barulho, muito barulho
Seja na aldeia mais remota de Portugal ou na capital, há sempre alguém a fazer barulho com tachos e panelas. Esta celebração da chegada do novo ano é um dos rituais mais antigos e universais. O antropólogo Francisco Vaz Silva dá dois exemplos. “Sempre que havia um eclipse, o ritual mais comum era fazer barulho para afastar o perigo. Isto muito antes da chegada dos romanos à Península Ibérica. E não acontecia só na Europa. Fazer barulho é um acto purificador, de afastar os perigos. Essa tradição via-se por exemplo no século XIX, quando um viúvo casava com uma jovem. Era um casamento mal visto por isso, as pessoas batiam com panelas e faziam barulho.”

Brindar com álcool, nunca com água
Champanhe ou espumante? É esta a escolha que vai ter de fazer no dia 31. Mas por que é que é tão importante brindar com álcool? “Tem a ver com uma ideia muito arcaica de que o álcool traz vitalidade e saúde. Desde que o álcool foi descoberto que simboliza a vida. Uma renovação das forças. Sempre que se bebia as pessoas ficavam num estado de excitação e alegria muito grande. Logo quando brindamos temos de o fazer com o que dá vida – álcool”, explica o antropólogo Francisco Vaz Silva.

Saltar de uma cadeira com o pé direito
A superstição de saltar da cadeira com o pé direito no novo ano não tem uma origem precisa, mas é fácil entender a razão desta mania. “Subir para a cadeira acaba por simbolizar a passagem entre um dia e outro, um ano e outro. A pessoa coloca-se entre o céu e a terra e o salto com o pé direito é o mesmo que entrar com o pé direito na soleira da porta – significa boa sorte. Desde que se celebra a passagem do ano que se acredita que o que se faz nessa noite vai influenciar o resto do ano. Este é mais um exemplo”, diz
Francisco Vaz Silva. 

Atirar coisas velhas pela janela dá sorte
A historiadora e jornalista Helena Matos ficou surpresa quando na sua pesquisa para a série da RTP “Conta-me como foi” (passada nos anos 60) encontrou muitas referências a um problema lisboeta: lixo atirado pelas janelas. “As pessoas atiravam coisas velhas pela janela na noite de ano novo. Pratos, panelas, ia tudo. Havia muitos apelos da polícia para que as pessoas não o fizessem.” O sociólogo Moisés Espírito Santo recorda-se bem dessa tradição e explica que faz parte do ritual de deixar tudo o que é velho para trás. “Guardavam-se coisas velhas durante o ano e nessa noite atirava-se tudo pela janela. Era um costume que levantava alguns problemas à câmara, mas era um rito de renovação.”

Mergulhar no mar
Os corajosos gostam de simbolizar a entrada no ano com um sacrifício digno dos Astecas. Em pleno Janeiro entrar num mar gelado, com ondas é um teste à resistência. “Um rito de passagem implica sempre um certo esforço. É uma prova de vida para demonstrar que resistem”, esclarece Moisés Espírito Santo. A ideia de água e banho sempre simbolizou vida e passagem entre mundos. Não nos podemos esquecer que no século XIX, muitas pessoas só tomavam banho quando nasciam e morriam (o cadáver era lavado para o funeral). “A água simbolizava a separação dos mundos”, defende o antropólogo Francisco Vaz Silva. O que significa ser no mar e não no rio? O investigador esclarece. “As ondas têm um movimento circular, que simboliza o ciclo da vida e do ano.” 

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